Os dias e a disciplina do amor

Eu escrevia para não sentir o vazio do amor quando, em resposta aos meus desejos (corriam os dias tranquilos!) encontrei-me com um adágio*. Aconteceu assim :
“Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra: um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho.
Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à casa. A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava até a correr todo animado atrás dos mais íntimos. Para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.
Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem-amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro, até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao posto de espera.
O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando aquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias.
Todos os dias, com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina. As pessoas estranhavam, mas quem esse cachorro está esperando?
Uma tarde (era inverno) ele lá ficou, o focinho voltado para aquela direção”.
[Lygia Fagundes Telles]
adágio=ditado popular ou provérbio
Sobre margens e vínculos
Cresci numa família em que as pessoas sempre tinham uma história para contar.
Eram causos e mais causos, histórias deliciosas de pescarias e lendas acontecidas num tempo muito distante, de quando meus antepassados viviam em terras estrangeiras.
Algumas delas foram acontecidas e outras completamente inventadas para causar distraimentos em quem as ouvia.
Um dia, escutei uma lenda que ocupou os meus pensamentos durante muito tempo. Quero, aqui, compartilhá-la com você.
Era mais ou menos assim:
Dois monges retornavam para o mosteiro, quando se aproximaram de um rio.
Uma mulher muito bonita aguardava indecisa à margem para atravessá-lo.
O monge mais velho imediatamente desviou os olhos da moça e continuou seu trajeto, vencendo as águas do rio.
Chegando a outra margem, olhou para trás e sentiu um aperto no coração. Viu que o monge mais jovem carregava nos ombros a moça, através do rio.
Depois, os dois monges continuaram sua viagem, lado a lado.
Diante do imenso portão do mosteiro, o mais velho não se conteve. Parou e disse ao outro:
- O que você fez não foi bom, é contra as regras. Você sabe que não devemos e não podemos tocar em nenhuma mulher.
O monge mais jovem respondeu:
- Eu a deixei na margem do rio. Você ainda a está carregando?
Nestes tempos narcísicos, vivemos os relacionamentos com as pessoas, nos apegamos a elas e investimos toda nossa força e energia no mundo a nossa volta.
Direcionamos nossos afetos ao outro e acabamos perdendo ou diminuindo a capacidade de amar, exatamente através de um paradoxo: não amar ou amar demais.
Ao assimilarmos que o outro não se apresentou como desejaríamos que fosse, desviamo-nos do caminho do vínculo e instalamos o desamor.
Mas, sem tristes palavras, podemos continuar a amar a quem perdemos.
De outro jeito; um amor não mais aprisionado ao corpo e a sua presença viva, mas à lembrança e à saudade. E assim o peso vai ficando esquecido à margem do rio e seguindo também no seu compasso certeiro de levar a vida. Mais livre da responsabilidade de esperar pela mão do outro.
Não se pode sofrer o grave frio dos medos como nos ensinou Guimarães. Porque, às vezes, é “nos rasos do mundo” que nos deparamos no meio do caminho, entre a entrada e a saída de uma ponte, com um peso que não é nosso e não o temos com quem dividir.
Atravessar margens, sejam elas sobre as costas de alguém, sobre pontes ou enfrentando as águas revoltas do rio, nos exige uma produção de sentidos, uma mudança de pensamentos e de gestos corajosos para que possamos inaugurar em nós outros valores existenciais, e nos oferecer possibilidades de renovadas travessias.
Afinal percebemos que o peso não era tão grande assim.
Feliz Natal! E que a sua travessia para o ano de 2012 seja de perplexidades perante sua capacidade de realização, e de estar no mundo!
Ultrapasse a margem, vivencie o imprevisto, invente laços afetivos. Só não permita o seu desejo suspenso entre as duas margens do rio. Instaure outros espaços onde os seus sentidos flutuem e acalcem a outra margem. Só você poderá ter o privilégio de atravessar a terceira margem do rio.
Instintos Castos
marcam-se em mim teus lábios cegos
como passos turvos na areia clara
o instante passa nos vagos do tempo:
teus braços brandos como a lua cheia
como as hastes das rosas brancas
teus sussurros bebem em nossas almas
no entardecer profundo das memórias vivas
dobram-se nossos corpos curvos
ao toque impalpável dos gestos gastos
e vão-se longos os horizontes longes
nestes delírios de instintos castos.
Aceitação

Como minha patronesse na Academia Poços-caldense de Letras, hoje quero cantar a minha poeta preferida, Cecília Meireles.
“Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.”
Aceitação
É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Densenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901.










corpos que me leem