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Sobre margens e vínculos

23 dez

Cresci numa família em que as pessoas sempre tinham uma história para contar.

Eram causos e mais causos, histórias deliciosas de pescarias e lendas acontecidas num tempo muito distante, de quando meus antepassados viviam em terras estrangeiras.

Algumas delas foram acontecidas e outras completamente inventadas para causar distraimentos em quem as ouvia.

Um dia, escutei uma lenda que ocupou os meus pensamentos durante muito tempo. Quero, aqui, compartilhá-la com você.

Era mais ou menos assim:

Dois monges retornavam para o mosteiro, quando se aproximaram de um rio.

Uma mulher muito bonita aguardava indecisa à margem para atravessá-lo.

O monge mais velho imediatamente desviou os olhos da moça e continuou seu trajeto, vencendo as águas do rio.

Chegando a outra margem, olhou para trás e sentiu um aperto no coração. Viu que o monge mais jovem carregava nos ombros a moça, através do rio.

Depois, os dois monges continuaram sua viagem, lado a lado.

Diante do imenso portão do mosteiro, o mais velho não se conteve. Parou e disse ao outro:

- O que você fez não foi bom, é contra as regras. Você sabe que não devemos e não podemos tocar em nenhuma mulher.

O monge mais jovem respondeu:

- Eu a deixei na margem do rio. Você ainda a está carregando?

Nestes tempos narcísicos, vivemos os relacionamentos com as pessoas, nos apegamos a elas e investimos toda nossa força e energia no mundo a nossa volta.

Direcionamos nossos afetos ao outro e acabamos perdendo ou diminuindo a capacidade de amar, exatamente através de um paradoxo: não amar ou amar demais.

Ao assimilarmos que o outro não se apresentou como desejaríamos que fosse, desviamo-nos do caminho do vínculo e instalamos o desamor.

Mas, sem tristes palavras, podemos continuar a amar a quem perdemos.

De outro jeito; um amor não mais aprisionado ao corpo e a sua presença viva, mas à lembrança e à saudade. E assim o peso vai ficando esquecido à margem do rio e seguindo também no seu compasso certeiro de levar a vida. Mais livre da responsabilidade de esperar pela mão do outro.

Não se pode sofrer o grave frio dos medos como nos ensinou Guimarães. Porque, às vezes, é “nos rasos do mundo” que nos deparamos no meio do caminho, entre a entrada e a saída de uma ponte, com um peso que não é nosso e não o temos com quem dividir.

Atravessar margens, sejam elas sobre as costas de alguém, sobre pontes ou enfrentando as águas revoltas do rio, nos exige uma produção de sentidos, uma mudança de pensamentos e de gestos corajosos para que possamos inaugurar em nós outros valores existenciais, e nos oferecer possibilidades de renovadas travessias.

Afinal percebemos que o peso não era tão grande assim.

Feliz Natal! E que a sua travessia para o ano de 2012 seja de perplexidades perante sua capacidade de realização, e de estar no mundo!

Ultrapasse a margem, vivencie o imprevisto, invente laços afetivos. Só não permita o seu desejo suspenso entre as duas margens do rio. Instaure outros espaços onde os seus sentidos flutuem e acalcem a outra margem. Só você poderá ter o privilégio de atravessar a terceira margem do rio.

 

Sobre Rita Schultz

escritora. professora de literatura artista plástica
3 Comments

Publicado por em 23/12/2011 em poesia

 

3 respostas para Sobre margens e vínculos

  1. Suzana Martins

    24/12/2011 at 07:53

    MInha linda e querida Ritinha, as suas histórias são sempre emocionantes. São palavras que vasculham a alma num revoar sem fim. Obrigada pelas suas palavras que sempre fazem festas, sorrisos, algumas lágrimas e um pulsar de letras que ultrapassa a alma.

    Obrigada pela sua presença em 2011, obrigada pelo carinho de sempre, pelos sorrisos e abraços, mesmo sendo virtuais. Essa tela aqui não conseguiu impedir que esse carinho chegasse até mim. Coisas da sensibilidade e sentimentalidade. Gosto disso, rs.

    Que em 2012 possamos nos encontrar e comemorar muito mais.

    Que vc e sua família tenha um excelente natal e um 2012 cheio de luz.

    Obrigada Ritinha!!

    Beijos e boas festas!!^^

     
  2. Francy´s

    24/12/2011 at 22:17

    É realmente tem histórias que nos marcam para sempre.Nesta que você contou para mim tem dois significados, um que nunca larga aquilo que devia deixar para trás e o outro é que nem sempre podemos ajudar(conheci um ditado que diz”muito ajuda quem não atrapalha”) acredito que cada um deve vencer suas próprias barreiras.
    Bom desejo a você muitas felicidades.

     
  3. carmen silvia presotto

    09/01/2012 at 17:26

    Rita poeta querida que sempre tenhamos remos poesia, palavras plenas para nossas travessias, bom estar aqui. Feliz 2012 e que seja com poesia.

    Carinho,

    Carmen.

     

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